
A operação que pode ter resultado na maior apreensão de cocaína da história do Brasil e na segunda maior já registrada no mundo chamou a atenção não apenas pelo volume da droga, mas também pela sofisticação do método utilizado pelos criminosos. Segundo especialistas, a técnica de esconder cocaína em estado líquido dentro de cargas de madeira já foi empregada por organizações criminosas internacionais ao longo das últimas décadas, incluindo estruturas ligadas ao narcotráfico colombiano.
A ação, realizada no último domingo (21), foi resultado de uma cooperação internacional entre Brasil, Estados Unidos e Bolívia. As investigações identificaram um esquema que utilizava cargas de madeira para ocultar cocaína líquida durante o transporte. A operação envolveu a Receita Federal, Polícia Federal, Exército Brasileiro, autoridades norte-americanas e a Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (FELCN), da Bolívia.
Ao todo, oito caminhões carregados com madeira foram interceptados, sendo quatro em Corumbá (MS) e quatro em Cáceres (MT). Testes preliminares confirmaram a presença de cocaína na carga. No entanto, a quantidade exata ainda depende da conclusão dos exames periciais.
De acordo com estimativas iniciais dos investigadores, entre 10% e 20% do peso total da madeira pode corresponder à cocaína. Caso a projeção seja confirmada, a carga poderá conter entre 20 e 50 toneladas da droga, um volume considerado sem precedentes no país.
O mestre em História Carlos Roberto Benjoino da Silva explica que a estratégia utilizada não é nova e segue uma lógica histórica do narcotráfico internacional.
“Esse tipo de método já era utilizado por grandes traficantes entre as décadas de 70, 80 e 90. A ideia sempre foi esconder a droga dentro de cargas comuns para evitar a fiscalização. O princípio é misturar o ilícito ao que aparentemente é legal”, explicou.
Segundo ele, embora Pablo Escobar não tenha criado a técnica, o cartel de Medellín contribuiu para aperfeiçoar métodos semelhantes durante o auge do narcotráfico colombiano.
“O Escobar não inventa isso, mas potencializa. No caso da madeira, por exemplo, ela ajudava a dificultar a detecção por cães farejadores, tornando o método ainda mais eficiente”, destacou.
O professor de Química Marciano Simões de Souza explicou que a chamada “cocaína líquida” é obtida por meio da dissolução do cloridrato de cocaína em solventes específicos, permitindo que a droga seja absorvida ou misturada a diferentes materiais.
“Isso não é exatamente novo. A cocaína pode ser dissolvida em diferentes solventes, como etanol, óleos e até líquidos alimentares. Já houve registros de ocultação em leite e outras substâncias”, afirmou.
No caso da apreensão realizada na fronteira, a suspeita é que a droga tenha sido incorporada à estrutura da madeira por meio de processos que aumentam sua capacidade de absorção.
“A madeira naturalmente não teria porosidade suficiente para receber esse volume. É possível que tenha passado por algum tratamento, como secagem intensa ou outros processos físicos para aumentar a absorção”, explicou.
Segundo o especialista, após chegar ao destino, os criminosos conseguem recuperar a droga por meio de processos químicos relativamente simples.
“Depois do transporte, o solvente é evaporado e o que sobra é o cloridrato de cocaína praticamente puro”, detalhou.
A sofisticação da técnica também dificulta a identificação durante fiscalizações convencionais.
“Esses solventes podem ser praticamente inodoros, o que torna a detecção muito mais difícil. Normalmente, esse tipo de carga só é descoberta quando já existe monitoramento prévio ou informações de inteligência”, destacou Marciano.
Apesar de toda a complexidade do esquema, a operação foi possível graças ao compartilhamento de informações entre os países envolvidos. Segundo o Governo Federal, a atuação conjunta ocorreu dentro de uma Área de Controle Integrado (ACI), mecanismo que permite a cooperação direta entre órgãos de fiscalização dos países participantes.
A carga apreendida era composta por madeiras das espécies aroeira e cedro, normalmente utilizadas na fabricação de móveis. Segundo a Receita Federal, toda a documentação da carga havia sido registrada regularmente no Portal Único de Comércio Exterior.
Agora, a Polícia Federal investiga se as transportadoras tinham conhecimento do esquema criminoso ou se a adulteração da carga ocorreu após o carregamento.
Vídeos e imagens obtidos pela PVA Queridinhas mostram o momento em que agentes utilizam cães farejadores para identificar a presença do entorpecente. Em seguida, amostras da madeira foram coletadas através de perfurações e submetidas a testes químicos preliminares, que confirmaram a presença da droga.
Caso as estimativas sejam confirmadas pela perícia, a apreensão poderá entrar para a história como uma das maiores já registradas no combate ao narcotráfico mundial.
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