Política Sob investigação
Gaeco investiga suposto “mensalinho” para garantir reeleição de presidente da Câmara de Várzea Grande
Investigação aponta suspeitas de pagamentos mensais a vereadores, distribuição de cargos e utilização de gravações clandestinas e cartas de renúncia.
22/10/2026 11h35
Por: Redação

Um suposto esquema de pagamento de R$ 10 mil mensais a vereadores de Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá, está sendo investigado pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de Mato Grosso.

De acordo com a investigação, o dinheiro teria sido utilizado para garantir apoio político à reeleição de Wanderley Cerqueira (MDB) à presidência da Câmara Municipal. O parlamentar está entre os alvos da Operação Cathedra Venalis, deflagrada na terça-feira (20).

A apuração também envolve suspeitas de distribuição de cargos públicos, oferta de vantagens financeiras, gravações clandestinas e utilização de cartas de renúncia como instrumentos de pressão contra vereadores.

As informações constam em uma representação criminal do Gaeco e foram divulgadas pelo portal RepórterMT nesta quarta-feira (21).

Como funcionaria o suposto “mensalinho”

Segundo o depoimento de uma testemunha cuja identidade foi preservada, vereadores integrantes do grupo político receberiam aproximadamente R$ 10 mil por mês para manter o apoio à presidência da Câmara.

Os pagamentos, conforme o relato, teriam ocorrido na residência da mãe de Wanderley Cerqueira, nas proximidades da Unidade Básica de Saúde Água Limpa, ou por intermédio de um secretário legislativo, que utilizaria um veículo Toyota Corolla preto blindado.

A testemunha também afirmou que os recursos poderiam ter origem em contratos de mídia e indicações realizadas no Legislativo municipal.

Essas informações são tratadas como hipóteses investigativas e ainda dependem de comprovação.

Cargos públicos também teriam sido oferecidos

Além dos pagamentos em dinheiro, a investigação aponta que cargos comissionados vinculados à Mesa Diretora poderiam ter sido utilizados para conquistar apoio parlamentar.

Conforme o relato apresentado ao Gaeco, seriam oferecidas de duas a quatro vagas, cada uma com remuneração de R$ 5 mil, acrescida de R$ 2,5 mil em verba indenizatória.

Valores citados na investigação

R$ 10 mil

Suposto pagamento mensal por vereador

R$ 7,5 mil

Remuneração e verba por cargo mencionado

Valores relatados à investigação, não pagamentos comprovados.

A representação menciona ainda a possível participação de outros agentes políticos, entre eles o ex-vice-prefeito de Várzea Grande, Tião da Zaeli. A eventual responsabilidade individual dos citados segue sob investigação.

Cartas de renúncia e gravações seriam usadas para pressionar parlamentares

Outro ponto investigado é a suposta utilização de cartas de renúncia assinadas antecipadamente por vereadores.

De acordo com os relatos, esses documentos teriam sido exigidos como garantia de fidelidade política durante as articulações para a eleição da Mesa Diretora.

O Gaeco também apura a existência de gravações clandestinas de encontros e entregas de dinheiro. Segundo a representação, os registros poderiam ser utilizados para constranger parlamentares que decidissem deixar o grupo ou votar de maneira contrária aos interesses dos articuladores.

Uma das reuniões mencionadas teria ocorrido entre o final de 2024 e o início de 2025, em uma chácara ligada ao vereador Dr. Miguel (Cidadania).

O juiz Cassio Leite Barros Netto apontou, na decisão que autorizou medidas investigativas, a existência de indícios de possíveis crimes como corrupção passiva, extorsão, concussão, ameaça e falsidade.

Operação teve vereadores de Várzea Grande e Cuiabá como alvos

A Operação Cathedra Venalis foi deflagrada em 20 de outubro, com medidas voltadas a investigar a atuação de parlamentares e servidores públicos.

Conforme a reportagem do RepórterMT, 13 vereadores de Várzea Grande e dois de Cuiabá figuram entre os alvos mencionados na investigação.

O procedimento busca esclarecer a possível existência de uma articulação para influenciar decisões da Câmara Municipal, especialmente a escolha da presidência do Legislativo.

A reeleição de Wanderley Cerqueira ocorreu em maio de 2026, por 12 votos a 11, mas a eleição foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em razão de sua realização antecipada. A disputa pela Mesa Diretora permanece judicializada.

Investigação ainda está em andamento

As suspeitas divulgadas pelo Gaeco não representam uma condenação dos investigados.

A apuração deverá esclarecer se os pagamentos efetivamente ocorreram, qual seria a origem dos recursos e se houve utilização de cargos públicos ou ameaças para interferir na atuação dos vereadores.

Até a conclusão das investigações, os citados têm direito à presunção de inocência e à ampla defesa.

O caso segue sob investigação das autoridades, sem que as acusações tenham sido definitivamente comprovadas.