Economia Bioenergia
Usinas de etanol já investiram R$ 27 bilhões em MT e preveem mais R$ 6,8 bilhões
Somente em 2025, a arrecadação estimada de ICMS associada ao setor chegou a R$ 3 bilhões.
20/10/2026 09h25
Por: Redação

A indústria de etanol vem ampliando sua participação na economia de Mato Grosso e já acumula R$ 27 bilhões em investimentos privados desde 2017. Além dos recursos aplicados na implantação e ampliação de usinas, o setor prevê investir outros R$ 6,8 bilhões até 2028.

Os números fazem parte de um levantamento realizado pelo Observatório de Mato Grosso, ligado à Federação das Indústrias de Mato Grosso (Fiemt), em parceria com o Sindicato das Indústrias de Bioenergia de Mato Grosso (Bioind-MT).

O estudo, divulgado nesta segunda-feira (19), aponta que as políticas estaduais de incentivo fiscal contribuíram para a expansão das indústrias de biocombustíveis, especialmente por meio do Programa de Desenvolvimento Industrial e Comercial de Mato Grosso (Prodeic).

A pesquisa também destaca o crescimento da arrecadação de impostos relacionada ao setor, que já responde por uma parcela significativa do ICMS estadual.

Etanol gerou R$ 3 bilhões em arrecadação em 2025

Segundo o levantamento, a arrecadação estimada de ICMS associada à indústria de etanol chegou a aproximadamente R$ 3 bilhões em 2025.

No mesmo período, as empresas receberam cerca de R$ 1,9 bilhão em incentivos fiscais.

A diferença entre os valores foi de R$ 1,1 bilhão, com arrecadação estimada superior ao montante dos benefícios concedidos naquele ano.

O resultado é apresentado pelas entidades como um indicador da importância econômica da política de incentivo à industrialização.

É importante destacar, porém, que a comparação entre arrecadação e incentivos não representa, isoladamente, um cálculo completo do retorno financeiro da política pública, pois não contempla todos os custos e efeitos econômicos envolvidos.

Participação do setor no ICMS triplicou

O crescimento da indústria de etanol também aparece na participação do segmento na arrecadação tributária estadual.

Em 2019, o setor representava aproximadamente 4% do ICMS arrecadado em Mato Grosso.

Em 2025, essa participação chegou a 12%.

Isso significa que a presença da indústria de etanol na arrecadação estadual triplicou em termos de participação percentual no período.

Para o presidente do Bioind-MT, José Fernando Mazuca Filho, o avanço demonstra que os investimentos em novas unidades e na ampliação das estruturas existentes estão contribuindo para fortalecer a economia estadual.

Segundo ele, os resultados também alcançam os municípios próximos às usinas, onde a atividade industrial movimenta diferentes setores da economia.

Arrecadação cresceu 627% em comparação com 2019

O estudo mostra que, entre 2020 e 2025, a arrecadação estimada de ICMS associada à indústria de etanol somou R$ 10,7 bilhões.

No mesmo intervalo, os incentivos fiscais concedidos ao setor totalizaram R$ 6,5 bilhões.

Na comparação entre os resultados anuais de 2019 e 2025, a arrecadação estimada cresceu 627%.

Já o valor dos incentivos aumentou 231%.

Esses percentuais indicam que, no período analisado, a arrecadação associada ao setor cresceu proporcionalmente mais do que os benefícios fiscais concedidos.

Cada R$ 1 de incentivo correspondeu a R$ 4,10 em investimentos

Outro dado destacado pela pesquisa é a relação entre os incentivos fiscais e o volume de recursos privados aplicados nas usinas.

De acordo com o levantamento, para cada R$ 1 concedido em incentivos, as empresas realizaram R$ 4,10 em investimentos privados.

A relação é utilizada pelas entidades industriais para demonstrar a capacidade da política de incentivo de acompanhar a expansão do setor.

Os recursos privados são destinados a projetos como construção de unidades industriais, ampliação da capacidade produtiva e modernização de instalações.

Entretanto, o indicador não significa que cada real de benefício fiscal tenha causado diretamente R$ 4,10 de novos investimentos. Trata-se de uma relação calculada a partir dos valores analisados no estudo.

Fiemt estima arrecadação menor sem ampliação dos incentivos

O levantamento também apresenta uma simulação sobre o que poderia ter ocorrido caso o Prodeic não tivesse sido ampliado e a produção de etanol permanecesse no patamar de 2019.

Nesse cenário hipotético, a arrecadação de ICMS associada ao setor seria 67% menor em 2025, segundo os pesquisadores.

A diferença representaria aproximadamente R$ 2 bilhões a menos em arrecadação estimada.

O presidente da Fiemt, Silvio Rangel, defende que a transformação da produção agrícola em produtos industrializados é uma estratégia para ampliar a geração de renda e a arrecadação tributária em Mato Grosso.

Para a entidade, incentivar o processamento de matérias-primas dentro do estado permite agregar valor à produção agrícola.

A projeção de perda de arrecadação, entretanto, é resultado de uma simulação e não de uma comparação com um cenário real sem incentivos.

Frete custou R$ 2,8 bilhões ao setor em apenas um ano

Um dos principais desafios apontados pela indústria é a distância entre Mato Grosso e os grandes centros consumidores de etanol, especialmente os localizados na região Sudeste do Brasil.

Segundo o levantamento, o custo total dos fretes em operações interestaduais chegou a aproximadamente R$ 2,8 bilhões em 2025.

O valor supera os R$ 1,9 bilhão em incentivos fiscais concedidos ao setor no mesmo período.

Para o consultor tributário do Bioind-MT, José Lombardi, o Prodeic contribui para reduzir parte da desvantagem competitiva provocada pelos custos de transporte.

Ele destaca que estados como Goiás e Mato Grosso do Sul também possuem políticas de incentivo à indústria, embora estejam mais próximos de determinados mercados consumidores.

Segundo o representante do setor, a ausência de incentivos poderia tornar outros estados mais atrativos para novos empreendimentos.

Milho e cana-de-açúcar abastecem a indústria de bioenergia

Mato Grosso possui uma indústria de bioenergia que utiliza matérias-primas agrícolas, principalmente milho e cana-de-açúcar, para a fabricação de combustíveis e outros produtos.

O Bioind-MT representa 13 empresas que atuam no processamento dessas matérias-primas no estado.

Além do etanol, as indústrias produzem açúcar, óleo, energia de biomassa, biogás, biometano e derivados destinados à alimentação animal, como DDG e DDGS.

A diversificação permite que a atividade industrial esteja conectada a diferentes cadeias produtivas, incluindo agricultura, pecuária, transporte e geração de energia.

Industrialização fortalece cadeia do agronegócio

A expansão das usinas representa uma etapa importante da industrialização do agronegócio mato-grossense.

Em vez de comercializar exclusivamente a matéria-prima agrícola, parte da produção pode ser processada dentro do próprio estado, gerando combustíveis e outros produtos com valor agregado.

Esse processo movimenta atividades relacionadas ao fornecimento de grãos, manutenção industrial, transporte, armazenamento e prestação de serviços.

O crescimento também pode beneficiar municípios que recebem unidades industriais ou que integram suas cadeias de fornecimento.

Apesar disso, o levantamento divulgado não apresenta uma quantificação específica de empregos criados ou dos investimentos distribuídos por município.

Novos investimentos estão previstos até 2028

A expectativa das entidades industriais é de continuidade da expansão nos próximos anos.

O setor projeta R$ 6,8 bilhões em novos investimentos até 2028, valor que se soma aos R$ 27 bilhões já aplicados desde 2017.

Caso toda a previsão seja concretizada, o volume acumulado poderá alcançar aproximadamente R$ 33,8 bilhões.

A realização dos novos investimentos dependerá da execução dos projetos anunciados e das condições econômicas e regulatórias do setor.

Para a Fiemt e o Bioind-MT, os resultados apresentados reforçam a importância da indústria de etanol na estratégia de desenvolvimento econômico de Mato Grosso.

Com participação de 12% no ICMS estadual e bilhões de reais em investimentos, o setor de bioenergia se consolida como uma das atividades industriais relevantes para a economia mato-grossense.