A Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou a Operação Janus para investigar um núcleo de uma facção criminosa suspeito de utilizar empresas do ramo alimentício e a distribuição de cestas básicas para lavar dinheiro proveniente, principalmente, do tráfico de drogas e de golpes virtuais.
A operação foi deflagrada na quarta-feira (23) e reúne 14 ordens judiciais, sendo 11 mandados de busca e apreensão, além de medidas de sequestro de bens móveis e imóveis. As determinações são cumpridas em Cuiabá, Várzea Grande e Rondonópolis, em Mato Grosso, e também em Goiânia (GO).
Os alvos são investigados pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa. As ordens foram expedidas pelo Núcleo de Justiça 4.0 do Juízo das Garantias – Polo Cuiabá.
Empresa movimentou R$ 13,2 milhões
Um dos pontos que chamou a atenção dos investigadores foi a movimentação financeira de uma empresa sediada em Várzea Grande.
Segundo a Polícia Civil, o estabelecimento movimentou R$ 13,2 milhões ao longo de quatro anos, apesar de, conforme a investigação, não apresentar estrutura física compatível com o volume e o tipo de atividade econômica declarada.
A apuração aponta que empresas formalmente constituídas para comercializar alimentos e cestas básicas teriam sido utilizadas para dar aparência de legalidade a recursos de origem criminosa.
De acordo com a investigação, os valores seriam inseridos em operações comerciais simuladas com a finalidade de ocultar ou dissimular a origem do dinheiro.
Investigada movimentou mais de R$ 36 milhões
A análise patrimonial também identificou movimentações consideradas incompatíveis com a capacidade econômica declarada de alguns dos investigados.
Segundo a Polícia Civil, uma mulher investigada movimentou mais de R$ 36 milhões em contas bancárias. Outro alvo teria movimentado mais de R$ 4,7 milhões.
Esses valores fazem parte dos elementos analisados pela investigação e não significam, isoladamente, que todo o montante tenha origem criminosa. A apuração busca justamente rastrear a procedência e o destino dos recursos.
Cestas básicas eram distribuídas
Além do possível esquema financeiro, a Polícia Civil investiga a utilização da distribuição de cestas básicas como estratégia para ampliar a influência da facção.
Conforme os investigadores, os alimentos eram destinados a integrantes e simpatizantes do grupo. A suspeita é de que a iniciativa, apresentada como assistência social, também fosse usada para fortalecer a presença da organização em determinadas regiões.
A investigação identificou uma suposta divisão de funções. Parte dos envolvidos seria responsável pela obtenção e movimentação do dinheiro, enquanto outros atuariam na compra dos alimentos e na logística das entregas.
Um dos investigados é apontado pela polícia como responsável pela distribuição das cestas e pelo uso dessas ações para tentar ampliar a influência territorial do grupo.
Presos também teriam participado da articulação
A investigação teve origem na análise de materiais apreendidos em operações anteriores da Gerência de Combate ao Crime Organizado e da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (GCCO/Draco).
A partir desses elementos, os policiais identificaram pessoas que supostamente participavam da articulação das atividades investigadas, inclusive integrantes que já estavam presos.
Entre as medidas patrimoniais determinadas pela Justiça estão o sequestro de um veículo e de um imóvel em Goiânia, apontados na investigação como possivelmente relacionados aos recursos sob apuração.
A Operação Janus é conduzida pela GCCO/Draco, com apoio da Delegacia Regional de Rondonópolis, da Delegacia Especializada de Crimes Fazendários (Defaz) e da Polícia Civil de Goiás.
O nome Janus faz referência a Jano, divindade romana tradicionalmente representada com duas faces. Segundo a Polícia Civil, a escolha simboliza a suposta dupla finalidade investigada: de um lado, a aparência de assistência social com a entrega de alimentos; de outro, a suspeita de utilização da estrutura para movimentar dinheiro de origem criminosa e ampliar a influência da facção.
As investigações continuam para identificar outros possíveis envolvidos, rastrear o patrimônio e esclarecer a origem e a movimentação dos recursos. Os fatos descritos são objeto de investigação, e as suspeitas atribuídas aos alvos não equivalem a condenação.