Agro Do céu à lavoura
Tecnologia e pesquisa mudam a forma de produzir no campo mato-grossense
Hoje, satélites, algoritmos, máquinas de precisão e inteligência de dados ajudam a tomar decisões antes mesmo do plantio.
24/08/2026 14h34
Por: Redação

Durante décadas, produzir no campo mato-grossense significou enfrentar uma série de incertezas. Informações sobre clima, solo e manejo eram limitadas, as máquinas tinham recursos mais simples e até a aquisição de insumos podia exigir longos deslocamentos.

O médico e produtor rural Carlos Gilberto Frison, que começou a produzir em Sorriso ainda na década de 1980, acompanhou de perto essa transformação. Segundo ele, naquele período, os agricultores precisavam aprender na prática quais culturas e técnicas melhor se adaptavam às condições de Mato Grosso.

“Eu não sabia nada no início. O pessoal que chegou no final da década de 70, até 80, só plantava arroz. Daí descobriram que o arroz só produzia um, dois anos e depois não produzia mais. Aí começaram a testar a cultura da soja”, relembra.

Na época, as dificuldades envolviam desde a adaptação das sementes até a falta de estruturas para armazenamento e comercialização. Carlos lembra que a produtividade era inferior à atual e que muitas sementes trazidas de outras regiões não apresentavam bom desempenho no estado.

Mais de quatro décadas depois, parte das decisões relacionadas à produção começa muito antes de a semente chegar ao solo. Máquinas modernas, sistemas de posicionamento, previsões meteorológicas, imagens de satélite e algoritmos passaram a oferecer informações que os primeiros agricultores de Mato Grosso não tinham disponíveis.

Satélites ajudam a enxergar as lavouras

A centenas de quilômetros da superfície terrestre, satélites captam dados que, depois de processados, podem auxiliar na identificação e no acompanhamento de lavouras de soja e milho, além de fornecer informações sobre o uso da terra e as propriedades rurais.

O pesquisador e professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em Sinop, Carlos Antonio da Silva Júnior, participa desse processo. Em 2012, antes mesmo de chegar a Mato Grosso, ele já desenvolvia um algoritmo capaz de mapear lavouras de soja utilizando imagens de satélite.

Por volta de 2015, o trabalho deu origem ao SojaMaps, projeto desenvolvido junto a estudantes e voltado ao mapeamento e monitoramento da cultura da soja em diferentes safras.

Mas o que exatamente um satélite consegue identificar em uma lavoura?

Os sensores captam a radiação eletromagnética refletida pela superfície. A partir desses dados, pesquisadores utilizam estatísticas, algoritmos, árvores de decisão e técnicas de machine learning para calcular a probabilidade de determinado ponto representar uma área cultivada com soja.

O sistema foi testado em diferentes regiões produtivas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.

Segundo Carlos Antonio, o mapeamento alcançou 98,5% de precisão, após a validação com mais de 5 mil pontos amostrais.

“A precisão é de 98,5%, cientificamente falando. A gente coletou mais de 5 mil pontos amostrais e validamos todo o mapeamento da soja e aí ficou em 98,5% de acerto”, destaca.

Além de identificar onde a soja está plantada, as informações permitem acompanhar mudanças no comportamento de determinadas áreas. Entretanto, o dado produzido pelo satélite não determina sozinho a causa de uma alteração na lavoura, sendo necessária a interpretação humana e, em alguns casos, a verificação em campo.

Tecnologia já faz parte do cotidiano do produtor

A transformação tecnológica no campo começou antes da popularização dos satélites e da inteligência artificial.

O presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Beber, lembra que ferramentas como o GPS começaram a ser utilizadas pelos produtores há mais de duas décadas, principalmente para aumentar a precisão na aplicação de defensivos e calcário.

“Os produtores primeiro iniciaram a fase mais arcaica do uso do GPS para fazer o balizamento para aplicação de defensivos, de calcário, melhorando a eficiência e reduzindo desperdício e falhas também nas aplicações”, explica.

O princípio permanece o mesmo: conhecer melhor a lavoura para tomar decisões mais precisas.

As imagens de satélite, por exemplo, podem auxiliar na identificação de áreas onde as plantas apresentam desenvolvimento inferior, permitindo comparações com regiões mais produtivas da mesma propriedade.

Antes disso, outros avanços foram fundamentais para transformar a agricultura mato-grossense, como o melhoramento genético, a correção da acidez do solo por meio da calagem e a adoção do sistema de plantio direto.

“Sem o uso da tecnologia, Mato Grosso não teria virado esse gigante”, resume Beber.

O desenvolvimento de variedades mais precoces de soja também modificou o calendário agrícola. Com a antecipação da colheita, tornou-se possível ampliar o espaço para o cultivo do milho na segunda safra, fortalecendo a integração entre as duas culturas.

Precisão também pode significar sustentabilidade

À medida que o produtor passa a conhecer melhor as diferenças existentes dentro da própria propriedade, a tecnologia também abre espaço para práticas mais eficientes.

Dados de satélite e outras ferramentas digitais podem ajudar a identificar problemas na lavoura, reduzir desperdícios, orientar o manejo, acompanhar áreas que precisam ser preservadas ou recuperadas e ampliar a capacidade de rastreamento da produção.

Para a engenheira agrônoma e criadora do Pequi Innovation Hub, em Sinop, Jéssica Gimenes, um dos desafios está justamente em fazer com que essas soluções sejam incorporadas ao cotidiano das propriedades.

Ela ressalta, porém, que a tecnologia não substitui a fiscalização ambiental nem determina sozinha a existência de irregularidades. As informações produzidas pelas ferramentas servem como ponto de partida para análises mais aprofundadas e cruzamento com bases oficiais.

“Eu acredito que a tecnologia é positiva e a gente tem que se adequar a ela. Só que, diferente do que muito se fala, ela não vai substituir totalmente o ser humano, porque uma máquina ou um computador pode dar problema e precisa do monitoramento contínuo de uma pessoa por trás”, pondera.

Da pesquisa acadêmica ao mercado

Outro desafio é ampliar a capacidade de Mato Grosso não apenas de consumir tecnologia, mas também de desenvolver soluções voltadas às necessidades do próprio setor produtivo.

Jéssica avalia que o número de empresas de tecnologia direcionadas ao agronegócio ainda é pequeno diante da dimensão da produção estadual. Para ela, uma aproximação maior entre universidades, produtores, empresas e ambientes de inovação pode acelerar esse processo.

A própria trajetória de Carlos Antonio representa esse movimento.

Depois de anos trabalhando academicamente com mapeamento por satélite, o pesquisador criou, em 2024, a SpectraX, uma deep tech voltada ao desenvolvimento de ferramentas de monitoramento para o agronegócio a partir de conhecimentos construídos durante as pesquisas.

“Depois de tantas pessoas pedirem soluções, não só da soja, propriamente dito, mas soluções baseadas em imagens de satélite, hoje a gente tem um paralelo com várias questões de pesquisa científica e também de fornecimento de informações ou de imagens satélite”, explica.

Tecnologia também impacta quem está fora da fazenda

O avanço tecnológico no campo não fica restrito às propriedades rurais.

Para Lucas Beber, o fortalecimento da pesquisa e da produtividade agrícola também possui reflexos diretos na população, já que a produção de grãos está conectada a diversas cadeias da economia.

Milho e farelo de soja, por exemplo, fazem parte da alimentação de animais utilizados na produção de carnes de frango e suína. Dessa forma, alterações na produção agrícola podem repercutir em diferentes etapas da cadeia até chegar ao consumidor.

“Quando nós temos mais pesquisa, consecutivamente nós conseguimos produzir e ofertar mais alimentos. Isso impacta diretamente tanto no preço da cesta básica quanto em todos os alimentos que a população consome”, afirma.

A conexão entre campo e cidade também pode ocorrer por meio dos ambientes de inovação.

Para Jéssica, a instalação de um hub em Sinop permite aproximar profissionais urbanos dos problemas e oportunidades existentes nas propriedades rurais e, ao mesmo tempo, aproximar produtores de universidades, empresas e profissionais de diferentes áreas.

O futuro passa pela integração

A transformação da agricultura mato-grossense não aconteceu de uma hora para outra. Ela foi construída a partir da combinação entre experiência dos produtores, pesquisa científica, melhoramento genético, máquinas, sistemas de precisão e, mais recentemente, grandes volumes de dados e inteligência computacional.

Carlos Gilberto Frison acompanhou essa evolução dentro das propriedades e também observou o crescimento das cidades que se desenvolveram ao redor do agronegócio.

“Eu acho que Sorriso depende quase que exclusivamente do agro. Sem o agro, Sorriso não existiria. E conforme o agro foi evoluindo, não só em Sorriso, mas no Brasil, Sorriso e região foram evoluindo mais rapidamente”, afirma.

Hoje, a tecnologia não elimina a experiência de quem está no campo. Ela acrescenta novas informações à tomada de decisão.

Dos primeiros anos de tentativa e erro ao uso de satélites capazes de mapear milhares de pontos de uma lavoura, a agricultura de Mato Grosso passou por uma profunda transformação. O próximo passo, segundo pesquisadores e produtores, é fazer com que essas ferramentas estejam cada vez mais integradas ao cotidiano das propriedades, combinando produtividade, eficiência e sustentabilidade.